O que é Didentro?

Ione, 27 anos.
Terra: boa, da garoa.
Onde mora a amizade e onde mora a alegria: no Largo de São Francisco, na velha academia.

Derretida: mas ninguém sabe.
Se eu choro: todo mundo assusta.
Prática: ao extremo.
Desaforo: não engulo.
Transparente: até demais.
Conselhos: dou e vendo, são os bons.
Leio e assisto: muito, de tudo.
Escuto: muito mais do que falo.
Toco: engano no piano.
Doença: preguiça aguda.
Amigos: tudo de bom.

Chega.
Seu didentro quer falar com o meu? Mande emails. Use o ICQ 33052273. Telefone. Ou use o MSN-amigo, com o endereço: ioneymoraes*hotpipipimail.com sei lá!

Colunistas
Allan Sigg, amigo querido, colaborador inspirado.
Gabrielica, minha sobrinhinha contadora de histórias.
Pacheco do Amaral escreve a coluna cultural.


Sinfonias de Mozart





junho 26, 2003

Paixão fingida - Décimo oitavo episódio

Curiosidade mata, não mata? Novos rumos na história de Sujeito, Ione e o Outro. Sim, senhor. Mesmo. Pois foi ontem, antes de sucumbir ao cansaço (exagerada!) que fui fazer visita ao Outro, que se chama Pedro Luiz. Pedro (não chamo ninguém por nome composta a não ser pela minha amiga Maria Renata -- ela odeia o Maria, mas o Maria é o que eu acho mais bonito. Em casa -- na minha casa, quero dizer -- todo mundo se refere a ela como MR. É, MR e eu nos conhecemos faz muito tempo).

Pois foi. Atarantada com a história toda da exposição do Tomáz e da falta de ter dito mais, omitido menos, fui fazer visita básica ao Pedro. Como ele está na UTI, isoladinho do mundo, dormindo e acordando na companhia de não outra que a sua gripe asiática, não pude entrar. Primeiro, pelo isolamento. Segundo, porque todo mundo sabe que em UTIs só entram pessoas da família e eu não sou família. Mas eu me sentei ao lado da mãe do Pedro (que conheci ontem, inclusive, e pareceu ser uma ótima pessoa, apesar de ter dado ao filho um nome composto) e escrevi uma carta pra ele, que ela entregou a ele, em seguida.

Na carta, contei toda a história: a de Tomáz, a do blog, a confusão toda, a minha confusão. E ele disse (disse não, pediu pra mãe dele me devolver um bilhete -- a letra do Pedro é tão bonita!): "Sabe, uma SARS pode fazer bem. Ione, eu não ligo. Não ligo mesmo. Pra mim, essas coisas todas do Tomáz parecem bobagens tão sem importância. E são. Tomáz é assim mesmo, esquisito. Olha, eu quero brincar de blog. Vou escrever pra você, vou mandar e-mails sempre que puder e você publica, tá bom? E olha, que bom que você sente coisas por mim, embora não saiba dizer que coisas são essas. Beijo, Pedro". É, por enquanto, não sei mesmo, Pedro.

Está aqui, então. E, sim, ele me pediu que as pessoas escrevam pra ele, se quiserem. Verdade. Não é tão diferente do Sujeito Tomáz? Por isso, se quiser, mande um e-mail para o Outro Pedro, nesse endereço. Só não vale paquerar o moço.


* * *


De: Pedro Luiz Vasconcellos da Silva e Lima
Para: Ione Moraes
Data: 04/24/2003
Assunto: O Amor nos Tempos da SARS

Unidade de Tratamento (ou Terapia, sei lá, nunca entendi isso) Intensivo (a), 24 pra 25 de abril de 2003.

Ione my dear,

Sinto muito não poder ter concretizado o convite para o jazz. Neste momento, só passear pelo Itaim já parece uma quimera tão distante. Aliás, não sei como me deixaram trazer meu laptop cá pra dentro. Os braços estão fracos, mas eu junto forças para te escrever.

Não sei se o que sinto no momento é mais frustração, raiva ou amor. Eu poderia dizer amor por ser o mais duradouro, mas a frustração e a raiva são as que mais me consomem. Paradoxalmente, são as que mais me movem, são minhas forças motrizes vitais, que me impelem a reagir contra estes vírus amarelos com todos meus glóbulos brancos.

Frustração de não ouvir um Coltrane básico com você. Frustração de não ensaiar, ainda que errando as teclas, um improviso jazzístico no Steinway. Raiva desse primo imprestável, que nunca aprendeu a delicadeza do Tio Mateus, que nunca apreendeu a doçura da Laurinha, minha tia de consideração... que nunca soube tratar bem uma mulher. Ai, que eca, agora tô com inveja e ciúme também. Que que eu faço? Que que eu faço?

Melhor descansar o braço. Desculpe a rima. Foi involuntária.

Um beijo no cantinho do olho,
Pedro.

A Menina do Didentro falou às 08:07 AM
Didentro Falantes (195)

maio 19, 2003

Paixão fingida - Décimo sétimo episódio

Você entende os moços? Juro, juro que não entendo. Então eu tenho que ouvir as mileumas razões pelas quais Sujeito Tomáz não quer mais ser personagem do que ele chamou de "minha novelinha", ler desaforos que ele colocou aqui e não poder mais falar com ele, mesmo depois da minha declaração de amor incondicional pela criatura, tenho que deixar de lado o maior programa bacana com o Outro (não, eu não tinha que deixar, mas deixei, porque a pessoa precisa de um tempo pra si) e depois, depois eu quero colocar um fim na "minha novelinha", parar de escrever, parar de contar, para de expor o que não deveria mesmo ser exposto, pra o Sujeito Tomáz aparecer aqui e reclamar sua vida de volta?

Tomáz, não entendo você, rapaz. Não entendo. Não era isso que você queria? Morrer? Quer dizer, não de verdade, eu sei que você não pegou SARS, nem nada, e deve continuar andando por aí com o seu corpo sarado (posso rir? só um pouquinho? acho que fui muito boazinha com você, nesse ponto) e sua cara sorridente olhando para todas as mocinhas incautas como eu, dando presentes como a sua caixinha de memórias e deixando mensagens em secretárias eletrônicas e falando dos passarinhos invisíveis. Ô, cansaço. Mas você pediu pra não aparecer, não pediu? Não pediu que eu não falasse mais com você, nem de você? Foi, eu lembro, não tente negar.

Pronto, matei você, dei a você uma morte rápida, uma gripinha asiática à toa. Aproveitei, deixei o Outro moribundo também, pra acabar com esse assunto de exposição e blablabla, resolvi deixar o Outro bem em paz com sua vidinha extra-computadores.

Então, pronto. Está insatisfeito? Não entendi. Fiz o que você pediu: estou forçando minha fila a andar. Se eu não entendi, se você tem mais alguma coisa a dizer, diga logo. Ah, sim, eu notei que você realmente bloqueou meu e-mail e realmente não atende meus telefonemas. Também, não tentei mais tanto assim, não vou ficar dando uma de bocoió e pedindo pelamordideu, Tomáz, Jesusmariajosé-e-oburrinho. Não, não vou. Quer, quer. Não quer, não quer. Simples assim.

Pegue seu banquinho e saia de mansinho por favor. Ou diga logo o que você quer.

A Menina do Didentro falou às 08:06 AM
Didentro Falantes (1)

Paixão fingida - Décimo sexto episódio

Ah, você não vai acreditar, mas Sujeito Tomáz entrou em contato com pessoa infectada pela SARS e pronto, foi pro hospital. Até ligou, antes de desfalecer em virtude das fraquezas trazidas pela doença, pra mim, pedindo perdão, de joelhos, achando que ia morrer e tudo mais. Ó, foi tão bom ver o Sujeito todo humilhadinho e arrependido, sou tão malvada, sou mesmo. Tão malvada que não estou nem chorando quando acabo de receber outra ligação dizendo assim que Sujeito faleceu em decorrência da tal da gripe asiática. Foi. Diz que faltavam glóbulos brancos naquele corpinho de que ele se orgulhava por ser sarado. Ah, mas o corpo sarado era fraquinho por dentro, então Sujeito empacotou e agora não mais viverá para colocar mensagens horríveis sobre mim nesse blog, tentando denegrir minha imagem tão arduamente construída perante o leitor (assim, no masculino, para me referir ao leitor e à leitora).

Daí que, acredite se quiser, o Outro era primo do Sujeito. Era, você sabe que eu não minto nunca. Não é muita coincidência? Não é? Afirmo pra você. E eles nem eram nada parecidos, não eram mesmo. Eu não desconfiaria, não saberia nunca, não fosse pelo Sujeito, no mesmo telefonema de moribundo, ter me dito que Outro foi visitá-lo no hospital e que blablablablabla, acabaram descobrindo que a Ione da história de um era Ione da história do outro. E, agora o toque final de dramaticidade, Outro foi contaminado pelo seu amado primo Sujeito e também está à beira da morte no hospital, em completo isolamento. Bobinho, Outro achando que tinha muitas fortalezas, tirou a máscara um instantinho só, pra dar um abraço de despedida no seu primo e amigo. Diz que esse não morre, feito Sujeito morreu, porque Outro é moço esperto que não confunde o fato de ser sarado com o fato de ser saudável, não senhor. Outro toma vitaminas todos os dias logo cedo. Vitamina C, que nem o Linus Pauling dizia que era bom fazer. É, o Linus Pauling, o das químicas e tabelinhas de valência. Ele tomava vitamina C pra ser um velhinho forte.

Então, pronto. Sujeito faleceu de SARS e Outro está lá, internado de roupa azul que aparece toda a buzanfa, que mico, jesuis.

Parece inverossímil? Parece, eu sei, nossa, essa morte inesperada, essa falta de sentimentos de minha parte, não é? É. História é minha, eu faço dela o que eu bem entender, termino a história nesse capítulo, cansei da novela Paixão fingida. Se quer melodrama, lágrimas, amor, fale com Manoel Carlos, eu penduro as minhas chuteiras no dia de hoje. Ui, cansa inventar histórias, sabe? E renovar dramas que giram em torno só de duas ou três personagens. E se fosse colocar mais personagens, daí não era mais novelinha de blog, virava logo uma revista Julia ou Sabrina.

Ah, mas não fique triste. Ione ainda vive sua própria vidinha, nem pegou a tal gripe e continuará aqui, como um seu ombro amigo. Não fique triste com o fim da novelinha, por favor. E obrigada por terem acompanhado esse emocionante folhetim.

A Menina do Didentro falou às 08:06 AM
Didentro Falantes (0)

Paixão fingida - Décimo quinto episódio

Acho que com essa manifestação do Tomáz não sobra muito o que dizer, não há muito como dizer isso ou aquilo nessas coisas. Quer dizer, nesses assuntos, não existe poder de convencimento, não existe argumentação. Eu posso cansar de repetir aqui tudo o que eu já disse, mas se Tomáz não acredita, paciência, gente, não há o que se fazer. Só esperava um pouco mais de, sei lá, comedimento, um pouco menos de agressão, eu sempre espero isso. Mas tudo bem, vou deixar disso, que Tomáz não deixa de estar com a razão.

É triste, mas é verdade. Já dizia minha sabia amiga Maria Renata que o amor é uma florzinha roxa que dá nos coração dos troxa (escrito desse jeito assim mesmo). E que, como diria Gonçavels Dias, que a Maria Renata sempre repetiu pra mim: "Não chores que a vida é luta renhida, viver é lutar. A vida é um combate que aos fracos abate, e aos fortes só pode exaltar". Tudo bem, ela dizia só a parte da vida é um combate que aos fracos abate.

Parece que Tomáz decidiu mesmo que não vai mais ler, nem escrever, nem ligar, ou atender telefonemas. Deu um cut total em mim. Melhor assim. Não costumo mesmo ir atrás de ninguém, nunca gostei dessas coisas de "por favor, volte". Pra mim, o que está dito, está dito, não adianta espernear. Tristezinha.

Mas, novelas continuam, né, gente? Porque, enquanto isso, enquanto Tomáz vem e me desanca em público (faz o que ele mesmo condenou), o Outro me ligou, o Outro ligou fazendo voz de pessoa docinho e convidou essa pessoa pra sair, qualquer coisinha, ouvir um jazz ali no Itaim.

Será? Depois disso tudo que aconteceu com Tomáz, tão faz pouco tempo?

A Menina do Didentro falou às 08:06 AM
Didentro Falantes (0)

Paixão fingida - Décimo quarto episódio

Não sei o quanto explicar aqui, porque houve tanta gente que saiu em minha defesa. Teve gente que já sabia que tudo não passava de uma brincadeira, mas que passou a duvidar, teve gente que sempre acreditou na veracidade de tudo. Calma, gente, calma. Não sei mesmo quantos esclarecimentos eu devo prestar, mas acho que devo a começar pelo Tomáz. Talvez isso ajude.

Tomáz, já que eu não posso ligar pra você e já que você me mandou um e-mail só pra me dizer que o meu endereço ia ser bloqueado, vou usar, mais uma vez, do blog para falar de você e com com você. Vou torcer pra você voltar aqui e ler as minhas explicações. Por favor, não se ofenda. Então, eu vou fazer aqui uma listinha das explicações que eu acho que devo a você, sem entrar no mérito das outras pisadas de bola que você deu comigo, vide a história da Siriga. Não, eu não vou mudar o foco da discussão, estamos falando do que eu fiz, não do que você fez.

1. Fui sincera. Sempre que eu disse a você que eu estava com vontade é porque eu estava de fato com vontade de tentar, sempre que eu estive desanimada, eu também não escondi e eu me eproximei e me afastei de você quando eu achei que deveria tomar uma e outra atitude. Eu sempre agi conforme o que eu estava sentindo. Eu não sei mentir, todo mundo sabe disso. Eu faço as caras mais estranhas pra acompanhar as minhas mentiras. Se eu tivesse mentido, você saberia. De qualquer forma, não foi o que aconteceu, e nessa você vai ter que confiar em mim.

2. Expus você. Ah, sim, eu expus a sua vida, como eu exponho a minha também. Mas eu tomei o cuidado de ocultar o nome -- tanto o seu, quanto os dos outros envolvidos. Não que isso sirva de desculpa, não serve, eu sei. Eu até publiquei aqui umas cartas que mandei a você, e uns e-mails que você escreveu, mas com o cuidado de inventar um endereço diferente do seu endereço verdadeiro (esse, foi você quem colocou aqui), e inventei também umas correspondências que eu disse que eram suas pra mim, mas Tomáz, entenda que eu estava com raiva. Eu só posso pedir desculpas. Foi errado, eu admito. De qualquer maneira, eu contei sobre mim e sobre você. Mas, olha só: eu só fiz isso porque (e desculpe a inevitável breguice de que fui acometida nesse instante) a sua história se confunde com a minha.

3. Omiti alguns fatos. Tudo bem, eu posso ter deixado de dizer uma coisa ou outra, admito. Por exemplo, eu não disse nada sobre o Outro existir. E às vezes eu pareci não estar interessada, sim, disso eu sei também, e não disse nada. Mas eu não disse nada porque eu realmente não sei o que dizer. Para mim, pareceu insuficiente dizer simplesmente que eu conheci o Outro, porque eu não sei realmente quem o Outro é, mas eu sei quem você é. É, pode parecer cruel falar sobre o Outro aqui, mas eu tenho que falar, para não haver mais omissões. Vamos jogar bem limpo agora.

Você sabe que eu conheci o Outro e não faz muito tempo. E o Outro, poxa, o Outro é envolvente, o Outro parece saber sobre tantas coisas, ao contrário de mim, o Outro parece que sabe ensinar, parece que sabe exatamente aonde é que tudo vai dar, o Outro me faz sentir pequeninha, uma tonta, uma bocó, parece que eu sumo perto do Outro. Ele me faz me sentir nervosa, me faz sentir calor, me deixa a boca seca, essas coisas. Mas, juro, prefiro, agora eu sei, ficar com você, porque você não quer ensinar (preparado pra outra frase bem batida e bem brega?, não estou conseguindo pensar em nada melhor agora, ainda mais chorando assim, é difícil escrever), você quer ir junto comigo pra gente aprender coisas juntos, e eu fico calma com você, muito calma, como se tudo fosse dar certo no final.

4. Exponho você. Não sei, Tomáz, mas agora você ficou grande assim, e o Outro ficou tão sem importância. Tomáz, acho que estou apaixonada por você.

A Menina do Didentro falou às 08:05 AM
Didentro Falantes (0)

Paixão fingida - Décimo segundo episódio

Então o Sujeito sobe, eu tento vencer a preguiça, ah, mas que se dane, recebo o Sujeito de camisola e pantufinhas mesmo. Como eu sempre digo para a minha mãe quando ela critica, por exemplo, meu jeito paspalhão de rir alto sem nenhuma doçura: ele tem que gostar de mim mesmo assim. E para falar a verdade, nem com toda a produção acho que eu consigo ficar menos desajeitada do que ficaria vestindo a tal camisola e calçando as tais pantufinhas. Minha mãe dá outros conselhos também, coisa bem de mãe. Por exemplo, ela diz que a gente deve sempre usar calcinha nova, combinando com o sutien, pro caso de a gente sofrer um acidente. Bem, mãe, eu concordo, mas acho que o acidente não é a melhor justificativa para andar com roupa de baixo bem limpinha, asseadinha e combinandinho. Enfim, vamos aos fatos.

Abro a porta para o Sujeito, ele espirra:

-- Foi a garoinha fria -- ele diz.
-- Entra. Vou fazer um chá de jasmim, pra esquentar.

E eu vou fazer o chá no lindo bulinho de tampinha azul que eu tenho desde sempre, e não deixo a água ferver porque é assim que se faz um bom chá. Não se deixa a água ferver e depois coloca um punhadinho de chá, bem pouquinho, no bule e deixa tampado, deixando o jasmim descansar e ir tingindo a água e ir dando sabor ao que antes era insípido e inodoro. Sujeito está na sala. Encontra um disco do Portishead e põe pra tocar, pra ver como é. Ele achava que eu só escutava jazz e mpb. Sujeito anda pelo apartamento, olhando tudo, reparando em detalhes. Tem uma foto nova em cima da cristaleira, ele não sabe quem é que está na foto comigo. Depois, em cima do piano, tem esse livro, de um autor de quem ele nunca tinha ouvido falar e de quem, no passado, eu dizia que não era muito fã. Que estranho, ele pensa. No meio de todo o processo de preparação do chá, como numa cerimônia, toca o telefone. O meu telefone.

Saio correndo, escorrendo pelo chão de tacos com as minhas pantufinhas, quase caindo na curva entre a sala e o quarto. Céus, JMJB, quem pode ser a essa hora? Olho no identificador de chamadas e, pronto, começo a mulherzar no mesmo momento. O básico: apertinhos no peito, pernas ligeiramente bambas, boca um tanto seca. É ele! Fecho a porta do quarto, pedindo licença ao Sujeito. Ele fica do lado de lá, eu escuto a respiração dele atrás da porta, os passos nervosos.

-- Quem era?
-- Um amigo meu. -- não quero me explicar muito.
-- Qual o nome dele?
-- Você não conhece. -- Por que tanta pergunta, agora?, eu penso, meio desconfiada. Desconfiada, não, meio paranóica mesmo, é isso. -- Bebe o seu chá -- e busco uma xícara cheia de chá de jasmim (sem açúcar, pelo amor de Deus!).

Então Sujeito começa. Ele me dá um caderno em branco, uma capa decorada com flores, eu gostei demais, lembrava de um caderno bonito que eu tinha no começo da faculdade, de tão bonito eu resolvi guardar, ele ainda existe, tive dó de usar e de ele se perder. Ele diz assim: eu sei que você gosta de escrever. Abro o caderno, ele tem folhas coloridas, folheio, sinto o cheiro do papel novo e no final de tudo, tem a letra do Sujeito. Sujeito escreveu qualquer coisa bonita, um pedaço de poesia, uma poesia que dizia assim que felicidade era tão simples e era mais simples perto de quem se quer. Poxa, o Sujeito é mesmo um cara bacana, eu olho pra ele com olhinhos de encantamento.

Sujeito conta sobre a Siriga, conta como eles se conheceram e tudo o que aconteceu e conta os motivos de ele ter insistido tanto com ela. Conta que se separou definitivamente dela, agora, durante as minhas férias, e como não consegue mais ver alguma chance para eles, porque agora ele só vê chances comigo, comigo só. Que ele está pronto, que ele quer tentar, que agora ele não está mais com medo e pega na minha mão e cheira atrás da minha orelha e põe a mão nas minhas costas e aperta. Ai.

-- Ai... Ai, Sujeito, acho melhor você ir.
-- O que foi? Foi alguma coisa que eu disse?
-- Foi. Quer dizer, não foi.
-- O quê? O quê?
-- Ah, Sujeito, sei lá. Eu te falei que eu estava com preguiça. Não sei.
-- Preguiça? Como preguiça?
-- Sujeito, se eu te pedir pra ir embora agora, você vai, sem perguntar mais nada?
-- Como assim?
-- É importante, Sujeito, depois eu te explico tudo.

Sujeito levanta, um tanto indignado, um tanto confuso, também, mas ele levanta e me dá um beijinho e diz que sim, que ele vai embora, que ele faz o que eu quero, porque ele vai mesmo tentar. E se despede, tomando o último gole de chá.

E assim, volto a me deitar bem escarrapachada no sofá, com um comecinho de dor de cabeça, com um tantinho de culpa, também. Como é que eu vou dizer para o Sujeito que eu conheci o Outro? Que o Outro me faz me sentir tão bem. E que o Sujeito também faz me sentir tão bem. E que agora eu não sei mais nada? O Outro que me deu o disco do Portishead e o livro novo e é ele também na foto em cima da cristaleira. E que o Outro, ah, o Outro... O outro me faz ficar com boca seca e o coração pulandinho, mas que o Sujeito me faz me sentir tão serena e feliz.

E agora, o que é que eu faço?

A Menina do Didentro falou às 08:05 AM
Didentro Falantes (0)

Paixão fingida - Décimo primeiro episódio

Então, então, então. Sujeito apareceu lá em casa ontem, bem pontual, direitinho como a gente tinha combinado. Você sabe como ele anda sempre cheirosinho e perfumado, como ele anda sempre arrumadinho. Eu até conseguia imaginar a cara dele, ele esperando na calçada. Enfim, o seu José interfonou, eu atendi. De banho tomado, de camisola e de pantufinhas. Não, elas não eram cor-de-rosa, não se engane sobre mim. Pantufinhas são coisas fofas, mas elas não eram cor-de-rosa. Atendi.

-- Olha, Seu José, quem é que ele disse que é?
-- Sujeito, Ione.
-- Sujeito?
-- É. Deixa eu perguntar de novo. (...) Isso mesmo, disse que é Sujeito o nome dele.
-- Ih, seu José. Que estranho... Eu nem estava esperando ninguém hoje. E nem conheço nenhum Sujeito.

Ouço o seu José tapando o bocal, do lado de lá da linha e dizendo isso ao Sujeito. Sério, não sei o que me deu. Sei que de repente me deu uma preguiça. Uma preguiça de vestir uma roupa assim ou assado, e passar talco nos pés e pôr meias e calçar os tênis novos. E escolher brinco e blábláblá. Preguiça maior me deu de pensar que eu ia ter todo um caminho para percorrer com o Sujeito, no carro do Sujeito, ouvindo a música que ele deve ter passado o dia pensando em qual seria, pra me agradar. Escolhendo o cd, escolhendo o lugar, ah, sei lé. Deu uma preguiça do Sujeito sem tamanho, de ter que ouvir ele falando suas explicaçõezinhas sobre a Siriga.

-- Alô, Ione?
Ih, não era o seu José.
-- Ione? Você tá aí?
Demorei um pouco pra responder. Suspirei:
-- Tô.
-- Ione, que é isso?
-- Ah, Sujeito, tenho preguiça. Preguiiiiiiça, sabe assim?
-- Preguiça de quê? Como assim? A gente não tinha combinado?
-- Ai, tinha, tinha, eu sei.
-- Então. Preguiça de quê? Você está cansada?
-- Preguiça, Sujeito, de tudo o que você vai dizer, de tudo. De colocar roupa, de sair de casa agora. Ainda tô meio em ritmo de férias.
-- Eu prometo que não te canso, ao contrário, eu descanso você. E olha, a gente já tá falando pelo interfone mesmo, o seu José tá olhando feio pra mim, Ione. Eu tô aqui embaixo, tá até meio frio, sabia? Tem garoa.
-- Eu sei.
-- E outra, eu te esperei tanto. Você ouviu minhas mensagens?
-- Ouvi. Umas vinte e tantas, sei lá.
-- Você ouviu mesmo?
-- Ouvi, Sujeito.
-- Porque parece que não. Parece que não ouviu que eu fiquei esperando você
-- Sujeito, olha...
-- Ione, eu tô te esperando, você não sabe quanto tempo faz.
-- Ah, que é isso, Sujeito. Quinze minutinhos na garoa não fazem mal pra ninguém. Tenho certeza de que você tá de agasalho.
-- Pára de graça, Ione, você sabe do que eu tô falando.
-- Tá, tá.
-- Então, Ione. Eu posso subir?

Foi daí que o Sujeito subiu.

A Menina do Didentro falou às 08:03 AM
Didentro Falantes (0)

Paixão fingida - Décimo episódio

Volto para São Paulo, quase refeita, quase com coragem, quase. Se eu descesse do táxi e começasse a chover, naquele momento, ia parecer filme. Para trilha, eu escolheria alguma sinfonia. Entraria no prédio toda ensopada, com a calça jeans pesando vinte quilos, arrepiada de frio, porque eu vestia uma roupa de calor e em São Paulo fazia frio e os pés estariam ensopados nas sandálias. Largaria as malas desastradamente no chão do corredor, atrás da minha porta. E veria a secretária eletrônica piscar: 25 mensagens.

25 mensagens? Eu me ausento por duas semanas e tenho 25 mensagens? Vou ouvindo. A primeira, é minha mesmo, lembrando de pagar uma conta, quando eu chegasse. Anotei num papel. A segunda, da minha corretora de seguros. A terceira, da agente de viagens, confirmando uma passagem (mas com ela eu falei pelo celular -- porque acabei remarcando a passagem de volta). E as outras todas são do Sujeito. O Sujeito contando do dia. O Sujeito usando minha secretária como se fosse um diário, contando que saiu com Fulano e Sicrano e voltou bêbado e dormiu abraçado num travesseiro recoberto numa fronha que ele nunca mais trocou porque tinha o meu perfume de flor de laranjeira. Sujeito, às vezes, liga e só diz o meu nome. Outra vez, ele me xinga. Outra vez, diz que quer me ver. E quando você volta, ele pergunta mil vezes.

Sujeito, você ligou. Sujeito, você não atendeu aos meus pedidos que eu fiz. Que bom, que bom, Sujeito. Acho que é hora da gente se encontrar.

Liguei pra ele, ele atendeu, ficou sem voz. Então eu falei sozinha e marquei da gente se ver, de sair pra jantar ou beber qualquer coisa. Ele só fez concordar. Amanhã, eu encontro com o Sujeito.

Mas o que é que eu vou dizer?

A Menina do Didentro falou às 08:03 AM
Didentro Falantes (0)

Paixão fingida - Nono episódio

Sujeito me ligou algumas vezes, mas o maravilhoso identificador de chamadas (obrigada, Deus, por essas pequenas tecnologias na vida de uma moça como eu) sempre indicava o nominho dele e eu resisti bravamente aos meus impulsos de mulherzinha: não atendi nenhuma das vezes. Na verdade, eu não sabia o que dizer, achei que, no fim, eu acabaria passando por cima do encontro, acabaria por acreditar no tal e-mail que Sujeito me mandou, explicando tudo sobre a Siriga e não, eu não quis que fosse assim. Acabei mandando uma carta pra ele. Deixei na caixa de correio dele, dia desses. Acredito mais em cartas que em e-mails. Acredito mais em ler a letra de alguém, no papel, na tinta -- que nos pequenos instantes que a gente leva para ler uma mensagem num monitor e, sobretudo, acreditei mais na permanência de uma carta (e por oposição, na impermanência de um e-mail: aperta-se delete e pronto). Não há "deletes" para cartas e não há "deletes" para o que vai escrito nelas, sobretudo.

* * *

Sujeito,

No consigo pensar muito, não quero. Li o que você escreveu, vi que você me ligou mais que mil vezes na última semana. Lendo, ouvi sua história. Apesar de sua, ela se parece com tantas outras, dessas que não têm fim (apesar de haver um fim para qualquer história, só que às vezes, ele está tão longe, que fica difícil da gente achar ou é a gente que não procura direito). Mas ela é sua, ela não é minha. Não sei se é verdade, as muitas histórias se entrelaçam, é verdade, pode ser verdade, mas agora eu senti que não se entrelaçariam -- não a minha e a sua. Eu quero uma história sem fim para mim. Pensei que ia ser agora, eu sempre penso isso, achei minha história sem fim. Mas eu sou ótima em dar fim a tudo, a nem começar.

Olha aqui o nosso não começo. Eu sou essa figura que tenta não se esconder, mas se esconde. É, eu falo igual uma matraca, eu falo alto, eu rio, eu quase converso sozinha. Mas será que eu conto de fato o que eu penso? Acho que não. Na maior parte do tempo, eu estou ocupada demais tentando não ser eu, não ser eu à vista, sou eu só escondida, só pra mim, muitas vezes. Porque as pessoas têm esse péssimo hábito de querer passar por mim que nem um trator e a idéia de ser esmagada não me agrada.

Estou saindo em férias. Antes que você se transmude, igual um Transformer,em um rolo compressor, saio em férias. Dá tempo pra pensar bastante, ou pra não pensar, pra ficar bem, pra ficar derretendo debaixo do sol ou ir passar muito frio em algum outro país. Nesse tempo, não me ligue. Se ligar, eu não vou atender. Não mande emails, eu não vou ler. Só fique pensando, sentindo, o que for preciso para saber se você vai querer encontrar um fim pra sua história com a Siriga e se quer desachar o fim da nossa. Não sei, Sujeito, não sei. Acho que é essa cerveja, esse Carnaval, esse calor. Mas eu estou brega demais.

Quando eu voltar, a gente conversa.

Beijo,
Ione


* * *

Tomara. Ô, tomara que Sujeito ignore o meu pedido, que me ligue, que me procure, que pergunte aos meus amigos onde é que eu estou. Tomara. Vai ser o jeito dele de dizer que só quer um começo aqui e um fim lá. Cerveja, acho que tenho bebido muito nesses dias.

A Menina do Didentro falou às 08:02 AM
Didentro Falantes (68)

Paixão fingida - Oitavo episódio

Leia, obviamente, de baixo para cima.
E, por favor, xingue o Fulaninho. Eu ia chamar de Sujeito, mas estou com vontade de ofender, então resolvi chamar de Fulaninho.

De: Ione Moraes
Para: Amigo da Ione Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:25
Assunto: RES:RES:RES:RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Consigo até te imaginar vestindo terno riscado, com lenço no bolso, as bochechas cheias de algodão, uma fumaça na sala, contra-luz. O Sujeito na sua frente, morrendo de medo da sua cara ameaçadora e você quase gritando, mas sem precisar (o que dá mais medo ainda): MACARRONI!
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De: Amigo da Ione
Para: Ione Moraes
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:23
Assunto: RES:RES:RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Pois é, tipo aqueles mafiosos italianos, que conquistam a confiança da pessoa e depois aproveitam.

Rimar com Ione é não é fácil.
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De: Ione Moraes
Para: Amigo da Ione
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:20
Assunto: RES:RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Macarroni?
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De: Amigo da Ione
Para: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
cc: Ione Moraes
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:15
Assunto: RES:RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

ora, ora, ora,
pro seu latim eu não dou bola
sou amigo da Ione
e a defendo dos macarroni
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De: Ione Moraes
Para: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
cc: Amigo da Ione
Enviada: Fevereiro 26, 2003 11:00
Assunto: RES:RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Isso mesmo, Amigo da Ione, dá nele! Dá nesse Sujeitinho!
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De: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
Para: Amigo da Ione
Enviada: Fevereiro 26, 2003 10:12
Assunto: RES: Seu, seu, seu Sujeito!

Quem é você, seu sujeitinho, que pensa que pode mandar uma mensagem ameaçadora dessas?

Ah, eu estou morrendo de medo.

Sempre tive medo de estrofes. Muito mais de rima rica.
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De: Amigo da Ione
Para: Sujeito - Su-jei-to
Enviada: Fevereiro 25, 2003 16:57
Assunto: Seu, seu, seu Sujeito!

Sujeito ladrão de caixinhas
trate bem a minha amiga
senão eu te bato na barriga
e te encho de riminhas

* * *

Por algum estranho motivo, Sujeito me manda cópias ocultas dos emails que recebe dos meus amigos. Não, Sujeito, eu não vou te defender (pelo menos por enquanto). E não, eu não estou indignada com o fato de as pessoas mandarem mensagens ameaçadoras para você.

A Menina do Didentro falou às 08:01 AM
Didentro Falantes (66)

Paixão fingida - Sétimo episódio

----- Original Message -----
From: Sujeito - su-jei-to@bol.com.br
To: Ione Moraes
Sent: Sunday, February 23, 2003 4:29 PM
Subject: Sujeito

Ione,

Não sei bem o que você pensou ontem, quando nos encontramos na balada. Pela sua cara -- e a de suas amigas -- você não deve ter ficado contente, o que seria natural. Você deve ter ficado confusa, como eu próprio estou. Pior: Você deve ter me achado um canalha irremediável e cretino, e você e suas amigas devem ter ficado discutindo sobre como os homens são iguais e cretinos. Tudo a que sempre achei que estaria imune.

Você merece uma explicação. Contarei toda ela, do começo ao fim, arriscando jogar fora o que começava a ganhar forma. Vou contar tudo porque assim me sentirei melhor comigo mesmo. Vamos lá, Sujeito, coragem...

Aquela moça com quem você me viu é a Siriga, minha ex namorada. Nunca contei a você sobre ela, não achava necessário. Cadáveres devem ficar onde estão. O problema todo é que certos cadáveres ainda estão insepultos. Foi o que aconteceu, a Siriga me telefonou, me chamou de apelidos nossos, me lembrou bons momentos. Confesso que estremeci, que esqueci por um instante os porquês de nossa separação.

Acontece que vivemos uma relação intensa. Mais de uma vez achei que ela era a mulher de minha vida. Ficamos alguns anos juntos, compartilhamos sonhos, brincamos com a idéia de ter filhos. Nada disso se esquece facilmente.

Pois naquele momento fraquejei. Decidi ver se os cacos de nosso amor, ainda não varridos por completo, poderiam ser colados, mesmo com muito trabalho. Se houvesse uma chance, teria partido e arriscado. Se não houvesse, os cacos iriam definitivamente para o limbo. O que não poderia acontecer era ficar na dúvida.

Pois fui. Conversei com ela, relembramos o passado. Foram lembranças dolorosas, como aquelas viagens que insistimos em repetir, e vemos que foram boas na primeira vez mas que nunca será do mesmo jeito. Eu estava pensando justamente nestas coisas quando você apareceu. Que não adianta querer repetir o passado, mas vale a pena ir buscar a felicidade em outros lugares, pensava em você.

Quando você apareceu, fiquei feliz, mas só por um segundo. Me dei conta que eu estava no lugar errado e com a compania mais comprometedora do mundo para encontrar você. Não poderia mais chegar amanhã, certo do que queria, e convidar você para iniciarmos de vez nossa história. Não poderia, porque tinha certeza que a partir daquele momento, você desconfiaria de mim.

Fui embora um pouco desolado. Deixei a Siriga em casa, e ela também havia percebido que não fazia mais sentido nós dois juntos. Cheguei em casa, coloquei músicas tristes e decidi escrever. Se há ainda alguma chance, estou apostando ela sendo sincero, mas tenho certeza que, se decidirmos continuar, terá sido a melhor decisão.

Será que ainda temos chance?

Um beijo,
Sujeito.

* * *

Se eu tivesse um anel de super gêmeos, eu ia dar o outro que faz par com esse anel para alguma amiga minha, e eu diria: Na forma de uma Meg Ryan de gelo!. Mas não, eu não tenho esse anel e agora tenho que resolver se:

(a) filtro os e-mails do Sujeito;
(b) peço de volta a caixa de lembranças porque eu não suporto pensar que ele terá lembranças minhas;
(c) desanco o Sujeito e uso todos os palavrões que eu aprendi com os meus irmãos mais velhos;
(d) ajo como uma mulherzinha: confusinha que só vendo, mas com uma predisposição para desculpar e tentar de novo, que é indescritível e inexplicável; ou
(e) n.d.a.

O que faço? O que é que eu faço?

P.S. Não é bonitinho como ele sabe separar sílabas? Su-jei-to. Aliás, como estou morrendo de raiva dele, no momento, se quiser, escreva para ele, nesse endereço e xingue de todos os nomes que quiser. De preferência, identifique-se como sendo meu amigo.

A Menina do Didentro falou às 08:00 AM
Didentro Falantes (95)

Paixão fingida - Sexto episódio

Meninas têm dessas coisas de quererem fazer a famosa girls’ night out. E vão todas juntas e elas se encontram na casa de uma delas e fazem todas essas coisas que mulheres fazem: de ligarem incessantemente umas para as outras e perguntarem que roupa elas devem vestir, se a outra vai de saia ou vai de jeans, de salto ou de tênis. E vão para a casa da outra e pedem aquele perfume emprestado ou aquela presilha que elas sempre quiseram usar. Enfim, todas essas coisas bobinhas que são tão divertidas e tão bobinhas (mais bobinhas que divertidas).

Pois fomos. Era sábado, eu tinha resolvido que essa história de dar um tempo desses programas de gente jovem não podia mais continuar e lá fomos nós -- todas as meninas lindas, cheirosas e bem vestidas e muito animadas (eu, na medida da minha força, tanto quanto me foi possível, o que não era muito).

E o lugar era pequeno e abafado, com o som muito alto, e pra dizer a verdade, não era mesmo o meu tipo de lugar. Esses lugares em que se vai e todos ficam olhando pra você e medindo tudo. Sim, eu uso óculos e tenho cara de nerd, vai encarar? Mas como eu sou essa pessoa que não liga muito pra isso, comecei a fazer o que eu sempre faço em lugares assim e dancei a minha dancinha, que longe de ser uma dancinha charmosa, é engraçada demais e faz todo mundo rir e e rir e pronto, éramos amigas nos divertindo na balada.

Éramos. Porque de repente, não mais que de repente, avisto o Sujeito. O Sujeito todo lindo como ele é, e eu já imaginava como ele estava tão cheiroso como ele sempre é. Confesso que minha boca secou e tive uma iniciozinho de taquicardia, essas coisas que a gente sente, essas emoções que a gente tem perto de moços que interessam a gente. E pensei: "vou parar de frescura com o Sujeito. Eu gosto dele, por que continuar blasé, se eu não sou blasé de verdade?" -- isso tem explicações outras, mas não cabe falar sobre elas nesse momento. E tendo pensado isso, tendo pensado em como eu queria era ir logo dar um beijo no Sujeito e dizer coisas bonitas sobre a nossa caixinha, vou andando até ele.

Mas paro no meio do caminho. Agora eu avistava não só o Sujeito, mas o Sujeito com uma moça. Uma moça bonita, aliás, e que sabia dançar dancinhas que não eram engraçadas como a minha, ao contrário. Uma moça que olhava pra ele e ele sorria e pegava na mão dela e apertava com força. As mulheres notam detalhes, sabe? "Siriga!", eu pensei, "siriga e sirigo -- ele é muito sirigo!". Mesmo assim, penso que devo ir falar com ele, deixá-lo saber que eu o tinha visto. E chego no Sujeito e digo: "Oi, tudo bem? Na verdade, eu só quis vir me despedir, eu tô indo embora.". E lá fica o Sujeito com cara de tacho, com cara de bobo, com cara de "ops, fui descoberto". Mas eu digo esse meu tchau e vou embora, e não paro quando o Sujeito me puxa pelo ombro e chama meu nome, o Sujeito quer dizer alguma coisa e eu não deixo. Minhas amigas logo chegam perto e dizem pra ele ir embora. Meninas são assim, uma pequena mafiazinha.

Foi isso. Depois de passarinho e caixa com laço e cineminha e tudo, encontrei Sujeito com outra numa balada.

A Menina do Didentro falou às 07:59 AM
Didentro Falantes (226)

Paixão fingida - Quinto episódio

Pois considerando um conselho aqui, outro ali, resolvi dar uma chance ao Sujeito e fomos ao cinema. O filme pouco importa. Na verdade, ele tomou o cuidade de escolher um que não parecesse inteligente demais -- de maneira que tivéssemos que realmente prestar atenção no roteiro e em tudo --, nem fosse excessivamente água com açúcar -- o que me faria achá-lo bobo. Mas cinemas são esses lugares que parecem ser seus amigos. Você entra no cinema e ele não lhe é nada estranho, é muito familiar, é como se fosse ficar escarrapachado no sofá da casa do seu melhor amigo, aquele amigo que você procura para não fazer nada com ele. Para ver tv e tomar Coca-Cola (light com gelo e limão -- em substituição ao querido guaraná diet com gelo e laranja -- resolvi dar um tempo dele para melhorar a nossa relação desgastada) e ler o jornal e fazer as palavras cruzadas e assistir programa de fofoca para falar mal de todos e depois assistir ao Provocações.

Garoto esperto esse Sujeito. Apareceu na minha porta, todo cheiroso, com aquele cheiro de banho tomado que (meu Deus!) é tão bom. Com o cabelo penteado de modo a parecer despenteado. Com aquele arzinho moderno, com aquele par bacana de tênis vermelhos que ele tem e que foi o que me fez um dia ir falar com ele (um elogio aos tênis, só eu para me aproximar de alguém por causa disso) e com a mão estendida: "Você vai ter que ficar de mão dada comigo o tempo todo", ele disse. Eu devolvi a ele a caixa de lembranças porque ele pediu que eu ficasse encarregada de criá-las, aos montes, e só boas, e ele ficaria responsável por guardá-las.

A sessão foi gostosa. A medida correta de filme e ombro e beijo e filme e escuro e conforto e sofá (não o sofá de fato, só a imaginação dele). E depois, depois de tudo, do cinema e tudo o mais (não quer mesmo que eu conte, né?), ele me levou embora e eu fui dormir, mas confesso que já estava meio sonhando. Ser mulher-mulherzinha de vez em quando compensa, um dia eu acabo com essa história de querer ser mulher-hominho.

Ouvi o telefone tocar, já de madrugada. Mas pensei que fosse só sonho. Algumas vezes eu me levantei durante a noite e fui atender, mas nunca era ninguém. Ontem, era alguém. Recado na secretária eletrônica:

"Hoje, Ione, você deve estar dormindo, mas eu não aguentei esperar. Estou acordado até agora e o meu passarinho (aquele que eu contei pra você, que eu vejo, mas ninguém mais vê) está comigo. Ele está na varanda desde a hora que eu cheguei em casa. Olhei muito pra ele, eu sorri, agradeci até. Meu passarinho é uma boa companhia. Peguei a minha Polaroid e tirei uma foto do passarinho. Na verdade, não era uma foto, era um desenho que eu fiz com lápis aquarelável. Recortei o papel como se fosse uma moldura de foto instantânea e acabei de colocar a foto que eu mesmo fiz dentro da nossa caixinha. Era isso, eu só queria te contar, e não queria deixar pra depois. Durma bem. Ou se você escutar isso antes de sair pro escritório, bom dia pra você, porque a minha noite, você fez ser muito boa. Se eu pudesse, colocava essa noite dentro da caixa também. Pensando bem, vou tirar uma foto da lua."

A Menina do Didentro falou às 07:59 AM
Didentro Falantes (139)

Paixão fingida - Quarto episódio

Dei um chega pra lá no Sujeito. Meus amigos homens me dizem que as mulheres devem ser menos mulherzinhas e devem ser mais blasé. Não chego a concordar plenamente, mas às vezes é irritante quando a gente se propõe a conversar e sair e mexer no cabelo dos tantos sujeitos por aí e, no fim, tomamos um fora bem dado, daqueles que não se esquecem. Homem é assim: a gente diz "te ligo", ele ouve: "quero casar com você". A gente pergunta: "como vão os seus rins?", ele entende: "anos depois, ainda não esqueci você e quero voltar" (nesse caso, o sujeito consegue enxergar a gente de joelhos). A gente aparece apresentando os amigos pra ele porque eles todos são pessoas bacanas que podem combinar, ele entende: "*odeu, ela quer me fazer entrar pra famíla, tenho certeza de que detrás de um poste sairão pai, mão, irmãos, cunhados e sobrinhos, sem contar avós para me conhecerem, onde serã que ela esconde a aliança?". Não dá. Definitivamente, por mais paciente que uma mulher seja, não dá.

Pois o Sujeito andou fazendo isso comigo. Andou dizendo que estávamos indo rápido demais e que ele era jovem. Bom, eu sou jovem também, embora eu esteja convencida de que, num dia de algum porre um pouco mais forte (daqueles em que se diz que se esquece tudo e que ficamos irresponsáveis pelos nossos atos), eu tenha feito algum tipo de pacto e que, num armário lá de casa exista um retrato que envelhece, enquanto eu continuo com a minha cara de menina que tem que apresentar documento de identidade pra poder fazer tatuagem e entrar em danceteria (se eu entrasse em danceterias. Sou tão velha que chamo danceterias de danceterias, imagine. Podia ser pior, eu poderia dizer: "casa noturna" ou "boite").

Pois enchi do Sujeito e pensei que, qualquer que fosse a explicação que eu desse, ele não entenderia. Os moços não costumam entender muita coisa mesmo. Costumam pensar que sabem mais do que a gente sobre o que a gente pensa e sente e resolvem tomar decisões por nós. A gente dá trelas para eles, eles pensam: "Aaaai, que grude. Ela tá apaixonada! Preciso me afastar antes que eu magoe essa moça!". Bom, se for pra magoar, que magoe, que é porque a gente escolheu assim, não o sujeito. Então, quando o Sujeito disse: "estamos indo rápido demais", antes que ele dissesse: "não, eu não vou casar com você", tirei meu timinho de campo e resolvi ir ser feliz em outro canto. Peguei o Igor, puxando pela coleirinha e fomos visitar outras paragens, onde a grama para ele seja mais verdinha.

Mas ontem, cheguei em casa, o Seu José, o síndico do meu prédio que vigia a que horas eu chego em casa, quem eu levo pra casa, a que horas os quens saem da minha casa e com que freqüência eu faço tudo isso (ele também acha que eu não tenho idade nem pra andar sozinha de avião), interfonou.

-- Boa noite, Ione.
-- Boa noite, Seu José.
-- Tem aqui um pacote pra você.
-- Pacote? É minha encomenda do Submarino?
-- Parece que não.
-- Da Americanas?
-- Não.
-- Livraria Cultura?
-- Não, não é nada disso. Não chegou pelo correio.
-- Não? Mas como é esse pacote?
-- É uma caixa e tem um laço
-- Tem cartão?
-- Não. Tô indo levar pra você.

Pois o Seu José me trouxe a tal caixa. Resolvi comer uma maçã enquanto fuçava. Abri a tampa e encontrei: um relógio parado, com o pino puxado. Olhei a hora, ela não me dizia nada. Uma entrada de um filme, no Espaço Unibanco, de uma sessão passada. O número do meu telefone anotado com a minha letra, num pedaço de papel rasgado, o verso de algum desses panfletos que oferecem leitura de búzios, em que estava anotado. Um caderno de capa dura de papel reciclado com algumas poesias copiadas a mão. Tinha Manoel de Barros, Hilda Hilst e Adélia Prado. Tinha Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Na última página, também a mão, uma observação: "Fernando Pessoa não combina com o que eu quero dizer". Uma pétala de rosa (das minhas, das que guardo nos meus livros) que eu dou de presente para algumas pessoas. Tinha um brinco meu, que eu jurava que eu tinha perdido. Tinha um papel de presente (que eu dei). Tinha o guardanapo de um restaurante bacana que eu conheci. E um bilhete:

“Te convido a colocar mais coisas nessa nossa caixa de memórias".

Assinava: Sujeito.

A última coisa que peguei, que estava pegada ao fundo da caixa, era outra entrada para um cinema, para uma sessão futura.

A Menina do Didentro falou às 07:58 AM
Didentro Falantes (150)

Paixão fingida - Terceiro episódio

Trim-trim-trim -- quem disse que telefone vai ring-ring? Telefone de gringo que faz esse barulho. Deixo tocar um pouco mais, saio correndo do banho. Nunca ninguém me liga, mas quando liga, invariavelmente eu estou no banho ou usando a conexão discada, de maneira que eu nunca sei se alguém de fato me ligou, porque nunca consigo atender. Ou seja, prefiro achar que as pessoas me ligam mas não conseguem falar comigo. Corro em pequenos saltitos, a toalha não impede que corra água para o chão:

-- Alô?
-- Ione?
-- Eu. Quem é? -- eu sabia que era o Sujeito, mas tinha que manter a pose.
-- Oi, é o Sujeito. Está ocupada? Pode falar?
-- Não, pode falar -- eu minto descaradamente.
-- Vamos fazer alguma coisa?
-- Hm, acabei de voltar do italiano. Tô pregada.
-- Que pena. Você já jantou?
-- Comi qualquer coisa na rua -- menti de novo. Se eu comer antes do italiano, só pode ser besteira. Besteira engorda. Logo, eu não comi na rua.
-- E amanhã?
-- Amanhã pode ser.
-- Ione, quando eu cheguei em casa hoje, tinha um passarinho pousado na minha varanda.
-- É sempre bom receber visitas, né, Sujeito?
-- Eu mostrei pra minha mãe, apontei com o dedo o passarinho na varanda. Ele cantava.
-- Ela gostou?
-- Ela não viu. Nem escutou o passarinho cantando.

Acho que gosto mesmo desse Sujeito.

A Menina do Didentro falou às 07:57 AM
Didentro Falantes (424)